Introdução
Segundo Juarez Bahia, autor de “Introdução à Comunicação Social”, “objetividade significa apurar corretamente, ser fidedigno, registrar as várias versões de um acontecimento. É também ser criterioso, honesto e impessoal”. Com esse conceito em mãos, portanto, parece quase um paradoxo o fato de que os jornalistas tenham que ser objetivos. Afinal, assim como um historiador, parece ser impossível para um jornalista se isentar de suas opiniões e de sua experiência de vida ao registrar um acontecimento, já que o simples fato de ele escolher o que vai noticiar já é uma forma de parcialidade.
Entretanto, a Teoria da Comunicação básica empregada em instituições que ensinam a profissão de Jornalista, bem como a teoria da construção de textos jornalísticos, é marcada por palavras como “imparcialidade”, “objetividade”, “exatidão” e “veracidade”. O próprio Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros disserta sobre “a verdade no relato dos fatos” e sobre o ato de “divulgar os fatos e as informações de interesse público”.
O que é, porém, “informações de interesse publico”? E como uma pessoa vai saber qual é a verdade em um fato? E será possível ser “criterioso, honesto e impessoal”?
A objetividade existe mesmo ou é um mito jornalístico?
A objetividade
Embora seja relacionada à forma do texto jornalístico por alguns teóricos, a objetividade é mais comumente ligada ao conteúdo. Exerce uma estreita relação com “exatidão” e “veracidade”, resultando na dita imparcialidade, que se torna sinônimo de objetividade ao também dissertar sobre a não-inserção do “eu” do jornalista na divulgação de uma notícia.
Assim, um texto objetivo é que aquele em que há a apresentação de características do objeto em questão a ser noticiado, sem haver comentários e impressões a respeito do mesmo e sem uso extremado de adjetivos e advérbios. Para isso, o jornalista deve se restringir ao que presenciou ou teve contato sem se incluir no acontecimento em si.
Seguindo essa linha, aparece como um dado extremamente importante o contato direto do jornalista com o fato a ser noticiado, já que é um de seus deveres atestar a veracidade do mesmo. Se isso não é possível, o profissional deve tentar de outras maneiras chegar a essa mesma constatação. Apenas através de uma apuração a fundo do caso é que a exatidão, ou mesmo a verossimilhança com a realidade, é alcançada. 1
Como já foi dito anteriormente, outra preocupação do jornalista deve ser a de divulgar noticias que estejam de acordo com o “interesse público”. A objetividade entra, nessa questão, na medida em que o jornalista analisa os diversos fatos rotineiros para selecionar quais são aqueles que apresentam um teor de importância à sociedade em si, como um todo. Afinal, ser objetivo é ser imparcial, o que significa que, ao fazer essa triagem, o jornalista deve se isentar de interesses pessoais, políticos ou mesmo mercadológicos. Caso isso não aconteça e o jornalista selecione e noticie fatos que interessem a uma pequena parcela da sociedade, ele estará ferindo o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros 2 .
O mesmo caso acontece caso o jornalista deixe de divulgar algo apenas por seu caráter jurídico devido a alguma divergência de interesse próprio ou de algum associado, e sendo esse acontecimento de alguma relevância pública.3
Outro dado importante que envolve a objetividade jornalística está ligado a uma maior percepção do acontecimento em si. Não uma percepção pessoal ou de sentido semelhante, mas sim a de procurar ver e contemplar todas as facetas envolvidas no fato. Para que não haja parcialidade, o jornalista deve procurar apurar o fato ouvindo e buscando informações não apenas de uma fonte, mas várias, e de diferentes classes sociais, econômicas ou de qualquer outro critério que possa ser usado. Assim, a divulgação do fato não estará envolvendo apenas uma pequena parte dos elementos envolvidos, mas sim a uma grande ou parte total, se possível.
Essa teoria de “ouvir os dois lados” ainda colabora com a não monopolização da informação, pois incentiva “a manifestação de opiniões divergentes” e “o livre debate de idéias”, 4 tarefas importantes para se obter uma atitude imparcial e objetiva.
Divergências na prática jornalística
A objetividade, porém, não é uma característica facilmente encontrada em uma profissional do Jornalismo e em seu trabalho. Na verdade, encontrar um texto objetivo –e isso quer dizer que são considerados os aspectos atrelados a esse conceito, tais como a veracidade, a imparcialidade e a exatidão –é uma tarefa praticamente impossível, já que a prática jornalística acaba diferindo em partes do que o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros institui e do que a maioria dos teóricos fala sobre ela própria.
Considerando, porém, a natureza humana e toda a sua complexidade, não é difícil de entender o porquê de certos teóricos considerarem a objetividade/imparcialidade apenas um mito, e não uma prática do Jornalista. O próprio Juarez Bahia fala sobre as dificuldades de se conseguir realizar um trabalho objetivo e imparcial e de alguns obstáculos para isso, como a formação cultural –característica inerente ao ser humano –e a arrogância do profissional de jornalismo.
José Marques de Melo, autor de “A questão da objetividade no jornalismo”, ainda diz que, mesmo que a objetividade esteja ligada à fidelidade com que o jornalista retrata a realidade, na prática, ela se torna um “mecanismo de síntese”, sendo que a “objetividade se converteu em sinônimo de verdade absoluta e é vendida como ingrediente para camuflar a tendenciosidade que existe no cotidiano dos veículos de comunicação”.
A questão é que, ao trabalhar com uma empresa ligada à divulgação de notícias, o jornalista está também se comprometendo com os anunciantes de tal empresa, sendo esta sujeita, obviamente, às leis de mercado. Assim, a exposição de fatos e acontecimentos que contrariem esses anunciantes não é tolerada, fazendo com que o jornalista deixe de lado seu dever de retratar tudo aquilo que seja de interesse da sociedade para dar prioridade aos interesses dos patrocinadores. Os proprietários de grandes empresas de comunicação não apenas no Brasil, mas em todo o mundo, definem sua linha editorial e os jornalistas que trabalham nelas a cumprem.
Há também outra questão importante, que é a da corrupção. Através de propinas, o jornalista e a empresa pra qual trabalha são levados a “ignorar’ certos acontecimento políticos e públicos ou a olhar “com bons olhos” certos fatos que exigiriam uma visão crítica mais aguçada e uma maior apuração.
Não é apenas, porém, por causa de questões moralmente contrárias à ética jornalística citadas acima que a objetividade se torna tão difícil na prática. O caso é que, para qualquer ser humano, deixar de lado suas convicções e ideologias, bem como seus valores morais conquistados e construídos durante toda a sua vida, é algo, se não impossível, improvável de ser conseguido. Portanto, as opiniões do jornalista sempre acabam influenciando no modo como ele vê e noticia os fatos, quer ele seja mais ou menos tendencioso.
Ao selecionar fatos comuns para serem noticiados, o jornalista já está usando também seus valores e sua vivência pessoal para saber o que é de interesse público ou não. Acaba usando também suas opiniões políticas e sociais, já que, como qualquer outro cidadão, ele também está incluído na vida política do país e nos acontecimentos que tomam como palco o grupo social em que está inserido.
Analisando o que José Marques de Melo falou e levando em consideração o que a maioria dos teóricos diz sobre a relação do jornalismo com a objetividade e ainda o famoso mito de que o jornalista apenas deve transmitir os fatos, enquanto que a pessoa a quem ele é transmitido é que deve formar suas próprias opiniões, os profissionais se utilizam de muitas técnicas para transparecer imparcialidade. O tratamento impessoal é a principal delas, fazendo parecer que o que está ali relatado não foi observado e formulado por uma pessoa, mas sim que são as próprias informações verídicas em si, isentas de opinião.
Mesmo aparentando objetividade, porém, o jornalista muitas vezes se utiliza de imagens, gráficos ou mesmo do texto falado ou escrito para transmitir o fato a partir de seu ponto de vista ou do ponto de vista de sua empresa, marcando uma matéria tendenciosa. O público, entretanto, enganado pela áurea de imparcialidade envolta no jornalista, acaba assimilando as informações já direcionadas a uma forma de pensar sem saber que, na verdade, não foi ele que formulou aquelas conclusões. O jornalista, obviamente, se aproveita dessa situação, fazendo da mídia um importantíssimo formulador de opiniões de interesse público ou não, já que fatos que não interessariam à sociedade em geral são elevados a uma dimensão de grande importância.
Exemplos e condutas na prática jornalística
Embora a objetividade seja, em sua totalidade, impossível de ser alcançada na prática, o jornalista não pode e nem deve ignorar esse conceito. Ele deve ter como base os ensinamentos teóricos de apuração, veracidade e exatidão, mesmo que não atinja a imparcialidade, pois, caso contrário, o jornalismo iria passar a ser nada mais do que preconceitos e opiniões derivados de uma única pessoa por trás dos ditos fatos, marcando uma divulgação extremamente declaratória. Afinal, como se pode concluir, as opiniões podem ser ditas –a questão está em como dizê-las.
Essa conduta jornalística de responsabilidade pública com o que está sendo noticiado deve ser ainda mais salientada quando os acontecimentos são relacionados a assuntos polêmicos, tais como a liberação do uso de células-tronco embrionárias em experiências científicas, o referendo realizado pelo governo para discutir o desarmamento ou não da população, a proibição de doação de sangue por testemunhas de Jeová, a eutanásia, entre outros. Afinal, tais assuntos envolvem inúmeras questões éticas e morais, já que o público, com toda a sua diversidade religiosa, econômica e social, apresenta diversos interesses e pontos de vista.
Em 27 de Fevereiro de 2008, por exemplo, a revista Veja, da editora Abril, teve como matéria central um assunto extremamente polêmico: a renúncia de Fidel Castro ao governo cubano. É, obviamente, um assunto de interesse público, já que se trata de um país de importância na política externa por seu passado de revolução socialista, de isolamento diante do mundo e de continuidade de poder centralizado em uma única pessoa durante tanto tempo.
Por ser um regime político que difere do brasileiro, é ainda do interesse público conhecer os pontos positivos e negativos de tal governo para saber o que pode ser aproveitado do exemplo cubano.
Sendo um regime ainda isolado, porém, a apuração jornalística se torna extremamente difícil, já que os documentos possíveis de ser visualizados são, em sua grande maioria, oficiais. Entretanto, uma forma de apuração ainda é possível ao ter contato com esses documentos, mas também com a população cubana em si, bem como cubanos que saíram da ilha e com historiadores com diversas linhas de pensamento.
O que a revista Veja fez, porém, foi apenas consultar as fontes que interessavam à linha de pensamento político que esse próprio meio de comunicação tem em relação à política externa em geral e a Cuba e Fidel em específico. Houve a construção, portanto, de uma matéria extremamente tendenciosa, direcionando o pensamento do leitor para uma visão negativa do período de governo de Fidel Castro e do regime político cubano. A mensagem a ser passada é tão clara que já pode ser notada na capa dessa revista semanal, em que havia um foto do perfil de Castro com os dizeres “Já vai tarde – o fim melancólico do ditador que isolou Cuba e hipnotizou a esquerda durante 50 anos”.
Com trechos como “Todo político tem que ser bom mentiroso. Para ser Fidel é preciso, no entanto, ser um grande farsante. Ele é um dos maiores que a história conheceu”, o jornalista segue em uma matéria altamente opinativa, sendo que ele acaba assumindo o papel de “juiz da história” ao selecionar fatos históricos que lhe interessam e confundi-los com sua própria opinião. Como ele próprio pergunta e responde sobre Fidel, “A história o absolverá? Difícil.”.
Em atitude antiética e não-profissional, o jornalista ainda se utiliza de sarcasmo e ironia ao tratar do tema, fazendo com que o mesmo, apesar de ser algo sério a ser noticiado e analisado, assuma um caráter quase cômico. Chega a fazer o esplêndido questionamento: “O que será de Cuba depois que Fidel for se encontrar com Marx no céu dos comunistas?”. Levando em consideração que o jornalista não deve fazer campanhas políticas, também é de se levar a crer que todos os regimes ou doutrinas políticas devem ser analisados sem preconceitos ou interesses individuais que tal profissional claramente aparenta ter.
Utilizando-se de frases de efeito como “Quem pôde fugiu” e “A economia planificada foi um desastre imediato”, o jornalista segue até o final da matéria com uma imagem tão carregada contra o regime cubano e Fidel que os dizeres na capa da revista parecem até ser justificados. Afinal, depois de todos os argumentos apresentados durante a leitura, a única idéia que deve surgir na mente do leitor é a de que, de fato, Fidel já foi tarde. Na verdade, não há nem outra alternativa de conclusão diante de tal argumentação.
Há ainda a apresentação de cenários prováveis para o futuro de Cuba e de dados que comprovam tal argumentação. São elementos essenciais nessa matéria, além de necessários, mas é questão é que eles seguem a mesma linha de todo o restante do texto, não deixando de lado as opiniões do jornalista e nem apresentando outros elementos que os contraponham. Há também a apresentação de situações em que cubanos reclamam e contestam o regime, bem como uma entrevista, mas não há, novamente, contra-argumentos. Estes marcariam o que é chamado, no Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, de “manifestação de opiniões divergentes” – sendo que, ironicamente, a falta dessa manifestação em solo cubano é um dos principais pontos a serem criticados pelo mesmo jornalista.
Conclusão
A objetividade, sinônimo de verdadeira imparcialidade com exatidão, apuração a fundo dos fatos e veracidade, é, de fato, um mito. A própria natureza humana é contra essa característica, já que cada homem está diretamente ligado a uma bagagem cultural intrínseca a ele, não podendo se desvencilhar de algo que molda toda a sua forma de pensar. A própria prática jornalística envolve muitos fatores mercadológicos e de interesses diversos para permitir que o jornalista cumpra sua tarefa de noticiar os fatos. Assim, a objetividade nos meios de comunicação é utopia, assim como o é também a própria imparcialidade humana.
Isso não quer dizer que a objetividade deva ser ignorada por completo. Não; como também disse Juarez Bahia, “a imparcialidade é para o jornalismo um ideal, como a honestidade, a exatidão, a veracidade, a responsabilidade, a objetividade, etc”. Ou seja, mesmo que ser objetivo e imparcial seja algo impossível para qualquer homem, o jornalista deve ter em mente esses conceitos para que possa ao menos se aproximar de uma divulgação verossímil à realidade. Afinal, é preciso levar em consideração valores éticos e morais antes de noticiar assuntos polêmicos, como o citado anteriormente –a renúncia do ditador Fidel Castro ao governo cubano.
Inclusive, o jornalista pode, sim, dar a sua opinião. Ele pode ser subjetivo. Com isso, ele torna a matéria ainda mais enriquecedora, além de estabelecer uma relação de proximidade com o público que coloca, de uma vez por todas, o trabalho jornalístico como fruto de um homem como qualquer outro, suscetível a erros e má interpretações. O que o jornalista não pode é misturar os acontecimentos com essas opiniões pessoais, pois o público, ao não ter tido um contato direto com as fontes e com o fato em si, não vai saber diferenciá-los. Ou mesmo porque, em um país como o Brasil, poucos são aqueles que têm discernimento necessário para avaliar o que é opinião e o que é notícia.
Referências bibliográficas
- “Objetividade: categoria jornalística mitificada”, Antonio Hohlfeldt.
- Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros (www.fenaj.org.br)
- “Introdução à Comunicação Social”, Juarez Bahia.
2 Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, Cap. II, Art. 6o É dever do jornalista: II - divulgar os fatos e as informações de interesse público;
3 Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, Cap. I, Art. 2o , I – a divulgação da informação precisa e correta é dever dos meios de comunicação e deve ser cumprida independentemente de sua natureza jurídica – se pública, estatal ou privada – e da linha política de seus proprietários e/ou diretores.
4 Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, Cap. II, Art. 7o, III