Thursday, June 26, 2008

Pirâmides ortográficas

“…a natureza informe e caótica de quase todos os livros. Um, que meu pai viu no hexágono do circuito noventa e quatro, constava das letras M C V malevolamente repetidas das primeira linha até a última. Outro (muito consultado nessa zona) é um simples labirinto de letras, mas a penúltima página diz “Ó tempo tuas pirâmides”. Já se sabe: por uma notícia justa, há léguas de cacofonias insensatas, de confusões verbais e de incoerências.”
“A Biblioteca de Babel”, Borges.

Embora um “simples labirinto de letras” possa parecer não ter qualquer sentido ou intenção de passar alguma mensagem, há, sim, uma simbologia por trás do mesmo. Afinal, entende-se por “labirinto de letras” uma sucessão contínua dos símbolos ortográficos, que vão se interligando de diferentes formas.
É justamente isso que se dá com o signo -mais precisamente, com o significante -, já que ele passa por uma evolução histórica, variando as letras e sua organização formal. É claro que essa variação também pode abalar o significado em si, até mesmo porque, sob a perspectiva temporal de alguns pensadores, o contexto histórico altera o processo de significação.
Analisando por uma perspectiva mais profunda, ao citar que “por uma notícia justa, há léguas de cacofonias insensatas, de confusões verbais e de incoerências.”, Borges pode estar se referindo não apenas ao processo de formação dos signos, mas também da fala. Isso porque, para se chegar a um signo plenamente formado (na escrita e na oralidade), é necessário um longo caminho de entendimento liguístico. Afinal, a comunicação envolve os sons e os carcteres ortográficos, mas o que está por trás de tal estrutura escrita ou falada é o que fornece significado -e é “significado” -a uma simples combinação de letras -até mesmo para as sem sentido “M C V malevolamente repetidas das primeira linha até a última” do livro.
Assim, a frase “Ó tempo tuas pirâmides” ganha um sentido bem maior; ela demonstra que o tempo, de fato, cria pirâmides e labirintos de caracteres ortográficos, já que as letras vão se recombinando, e essas múltiplas e intermináveis combinações geram o que conhecemos como signos. Afinal, mesmo que as combinação sejam realmente infinitas, não são todas que estão presentes na fala e na escrita, pois apenas algumas delas fazem sentido para os que falam e escrevem -as que não fazem vão sendo deixadas para trás, na parte mais larga da pirâmide.

***25 de Junho de 2008***

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Friday, June 13, 2008

Burgueses e Proletários - Manifesto Comunista

Durante toda a História, as sociedades se dividiram em estamentos ou classes. As variações que elas sofreram –ou seja, a passagem de um modo de produção ao outro -foram conseqüência da oposição entre essas divisões internas, a chamada Luta de Classes. Essa é uma luta entre, basicamente, opressores e oprimidos, sejam esses patrícios e plebeus ou senhores feudais e servos.

Assim, a sociedade burguesa –sendo esta a do século XIX –também apresenta antagonismos, mas com outras classes e outras formas de opressão. Os dois grandes blocos de oposição dela são os burgueses e os proletários.

A Burguesia é o produto de uma série de revoluções nos meios de produção e de transporte. Dos burgueses extra-muros, moradores das primeiras cidades no final da Idade Média, surgiram os primeiros elementos da burguesia, que, daí em diante, não parou de crescer e de acumular poder. Com as Grandes Navegações e as descobertas de novos mercados e mercadorias, o comércio e a indústria ganharam um impulso que colaborou também com o processo revolucionário que estava se dando na sociedade feudal. Afinal, o funcionamento feudal e mesmo a indústria da época não eram mais suficientes para provir à demanda. Assim, a manufatura surgiu, bem como a divisão interna de trabalho, e o estrato médio industrial se fortaleceu.

Com isso, o mercado começou a crescer cada vez mais, e logo as manufaturas se tornaram ultrapassadas. Aí, o vapor e a maquinaria revolucionaram a produção industrial, surgindo, então, os milionários industriais, os burgueses propriamente ditos.
Com seu caráter revolucionário, a burguesia destruiu todas as relações feudais aonde teve acesso. Além disso, difere das outras classes dominantes por manter sempre em transformação as relações de produção e, em um estado de insegurança, as relações sociais. Marx e Engels ainda a acusam de reduzir as relações humanas ao puro egoísmo e interesse, dissolvendo a dignidade pessoal em valor de troca: a prática das ciências se transformou em trabalho assalariado e a família passou a ser uma instituição monetária Desse modo e através da liberdade de comércio e da exaltação ao trabalho, a Burguesia instituiu a opressão escancarada.
Com o mercado mundial que a grande indústria criara, o comércio tornou a se desenvolver, bem como a rede de comunicação por terra. Conseqüentemente, esse desenvolvimento fazia com que a indústria crescesse cada vez mais, e a burguesia ia, por isso, acumulando poder e tornando-se a classe dominante absoluta e conquistando o domínio político exclusivo. Portanto, fazendo uma citação, “o poder estatal moderno é apenas uma comissão que administra os negócios comuns do conjunto da classe burguesa.”.
Através do mercado mundial, a Burguesia estabeleceu seu padrão de consumo e de produção. Assim, as indústrias foram gradualmente perdendo seu caráter nacional. Essas indústrias multinacionais que não usam mais matéria-prima nativa e exportam para todo o mundo passaram a ser uma necessidade para qualquer nação civilizada por causa das novas necessidades de consumo. Acabou surgindo, então, uma interdependência múltipla das nações, e o que se dá com a produção material, dá-se também com a produção intelectual. Assim, a burguesia segue obrigando o mundo, através da comunicação e do mercado competitivo, a se adaptar a ela própria.
Assim como a burguesia submeteu o campo ao domínio da superdesenvolvida cidade –ou seja, os agrários dependentes dos burgueses-, ela fez com que houvesse uma hierarquia de dominação entre as nações também. Do mesmo modo, o Ocidente acabou dominando o Oriente. É justamente através dessa dominação que a burguesia acaba concentrando a propriedade em poucas mãos, bem como os meios de produção. Conseqüentemente, houve também uma centralização política, e é por isso que a figura do Estado, da nação, é tão importante para essa classe.
Marx e Engels ainda falam, porém, que assim como o período feudal criou os elementos que causaram o seu próprio fim –a burguesia, o comércio, etc -, o período burguês também acabou criando armas que se voltam contra ela própria.
A primeira dessas armas é o modo de produção burguês –ou seja, capitalista –propriamente dito, pois as forças de produção –a economia, a indústria, etc -acabam se tornando tão poderosas que acabam por fugir do alcance da burguesia. Fazendo uma citação, “As relações burguesas tornaram-se demasiado estreitas para abarcar a riqueza gerada por elas.”. E é justamente por isso que as crises comerciais são tão constantes, sendo que essas crises são combatidas pelos burgueses ou pelo extermínio de parte das forças produtivas ou pela conquista e exploração de novos mercados.
A segunda dessas armas é a classe chamada proletária, os operários modernos. Esses operários, que são uma mercadoria como qualquer outra, já que vendem seu trabalho, foram crescendo na medida em que a burguesia também crescia, pois eles têm uma relação direta com o capital. Sendo eles uma mercadoria, também estão sujeitos às oscilações do mercado e a suas crises. Assim, essa segunda arma é afetada pela primeira.
Na medida em que a maquinaria se expandiu e com ela a divisão do trabalho, o trabalho do proletário foi se tornando cada vez mais alienado, pois ele passou a ser apenas um acessório da máquina. Quanto ao seu salário, já que o preço de uma mercadoria é relacionada ao seu preço de custo de produção, era suficiente apenas à sua própria sobrevivência. Aliás, na medida que seu trabalho foi se tornando mais simples e dividido, seu salário foi diminuindo, pois o pagamento também está relacionado com o trabalho feito. E com a expansão da maquinaria, a massa de operários também aumentou.
“A indústria moderna transformou a pequena oficina do mestre patriarcal na grande fábrica do capitalista industrial.” Os operários, organizados de uma forma quase soldadesca, foram escravizados não somente pelo Estado Burguês, mas também pelas máquinas, em um modo de produção que visava apenas o lucro. Afinal, após ele receber seu salário do patrão, outras partes da sociedade burguesa –o penhorista, o dono da mercearia –caem sobre ele.
Ainda há uma rápida citação ao fato de que, com a simplificação do trabalho, diferenças de sexo e idade não faziam mais sentido para os operários, pois mulheres e crianças passaram a ser capazes de realizar o trabalho fabril.
Ainda há uma outra segmentação na sociedade moderna, que é a do estrato médio. Essa parte, porém, acaba indo para o proletariado, pois ela não tem o dinheiro suficiente para investir no comércio pesado e na indústria. Se ainda tenta, acaba perdendo diante da concorrência dos capitalistas maiores.
E como esse proletariado é uma arma? É uma arma porque ele luta contra a sua exploração, seja tendo como alvo as relações de produção burguesa, ou as próprias máquinas e as mercadorias estrangeiras. Nessa etapa da luta, os proletários se encontram em focos dispersos, sendo que apenas são unidos através da liderança burguesa, que os utiliza para atingir seus próprios objetivos. Assim, os trabalhadores acabam combatendo os “inimigos dos seus inimigos”, que são os pequenos burgueses, os resquícios da monarquia, etc.
Com a expansão da máquina, porém, a massa proletária acabou crescendo muito, e seu trabalho, ao ser simplificado, foi se igualando. Por isso, os interesses dessa classe também foram se assemelhando. Afinal, todos sofriam as oscilações dos salários, além da insegurança que a constante variação e desenvolvimento da maquinaria trazia. Portanto, os proletários começam a formar um bloco sólido contra a burguesia.
O percurso dessa luta de classes vai unindo os trabalhadores cada vez mais, sendo que a rede de comunicações desenvolvida pelos burgueses os ajuda nessa etapa. Essa luta nacional, que é também uma luta política, é constantemente interrompida por causa de conflitos internos ao movimento, entre os próprios operários. Quando ressurge, porém, está sempre fortalecida, se aproveitando do fato de a burguesia estar sempre em conflito –seja contra a aristocracia, contra partes dela própria ou contra as burguesias estrangeiras –e de precisar do proletariado nesses embates. Assim, é a própria burguesia que engolfa os operários na luta política.
Em um determinado momento, essa luta de classes se torna tão violenta e a burguesia, dividida, que uma fração da classe dominante, incluindo ideólogos, acaba passando para a classe oprimida –a que traz o futuro nas mãos. Afinal, a classe operária é a única revolucionária da época, já que as outras, mesmo que combatam, são conservadoras.
Com o decorrer da luta, a sociedade vai mudando para se adequar ao modo de vida operário. O proletário é despossuído e, por isso, sua relação familiar é diferente da burguesa. Ele também não tem caráter nacional justamente por causa da burguesia, que lhe tirou isso. Entretanto, é um movimento nacional porque o proletário age contra a burguesia do seu país.
Continuando e fazendo uma citação, “As leis, a moral, a religião são para ele outros tantos preconceitos burgueses, atrás dos quais se escondem outros tantos interesses burgueses.”. Como não têm nada de seu para assegurar, os proletários, diferente de todas as outras classes dominantes da História, acabam destruindo as garantias privadas. Afinal, por ser a maioria esmagadora, eles não podem se erguer sem, com isso, abalar toda a estrutura da sociedade. Vale ressaltar que essa luta, como qualquer processo revolucionário, é necessariamente violenta justamente por esse ponto.

Garantindo que esse confronto vai ocorrer, o Manifesto expõe o seguinte trecho: “Ela (a burguesia) é incapaz de dominar porque é incapaz de assegurar aos seus escravos (os operários) uma existência mesmo no âmbito da escravidão, porque ela é obrigada a deixá-los descer a uma situação em que ela tem de alimentá-los, em vez de ser alimentada por eles. A sociedade não pode mais viver sob a burguesia, isto é, a vida desta não é mais compatível com a sociedade. (…)Ela produz em primeiro lugar o seu próprio coveiro. A sua derrocada e a vitória do proletariado são igualmente inevitáveis.”

 

Críticas

Há algumas críticas a serem feitas a esse trecho do Manifesto. 
Nodari A. Simonia diz que Marx e Engels estavam presos ao seu tempo, como qualquer historiador. Não havia como eles saberem que hoje, com a Terceira Revolução Industrial, a tecnologia e a informática se espalhariam a ponto de deixar as forças de produção industriais em segundo plano.
Em relação à luta de classes, Nodari ainda critica o fato de que o Manifesto coloca o proletariado com uma classe preparada para reconstruir e liderar a nova sociedade. Ao seu ver, assim como os escravos da antiguidade e os servos da Idade Média, os trabalhadores não tinham condições para tal.
Já Fábio Konder Comparato e muitos outros elogia a previsão de Marx e Engels à respeito da globalização, do processo de mundialização da economia, ou seja, da exploração do mercado global. O que ele critica, porém, é o fato de que essa justificativa está baseada no fato de haver uma proporção entre o crescimento do capital e o aumento da massa trabalhadora. O capitalismo atual acaba desvinculando esses dois elementos, pois ele acabou se tornando muito especulativo com as bolsas de negócios e suas ações, além de que hoje, se tenta sempre produzir mais com menos gastos, o que inclui menos trabalhadores.
Outro erro do Manifesto é, como diz Ignacy Sachs, o de supor que o capitalismo seria incapaz de fazer frente às suas contradições.
Jacob Gorender fala que Marx e Engels acertaram em cheio ao falar que a classe proletária seria a antagonista da burguesa, e tiveram um papel importante na História porque deram ao proletariado um caráter político. Ou seja, fizeram com que a luta proletária tivesse objetivos definidos e, de preferência, visando o Estado. Acertaram também na união e fortalecimento dos operários, mas erraram no ponto de que eles iriam apoiar uma revolução comunista; ao contrário, os trabalhadores se contentaram com a conquista de benefícios reformistas no quadro do regime burguês, que haviam percebido o perigo da situação. Esse fato apenas prova que o decorrer da roda da História é imprevisível, apesar das previsões de Marx e Engels. Como Jacob ainda diz, “o marxismo continuará ferramenta intelectual de primeira ordem para todos os movimentos anticapitalistas. Mas só poderá dar a certeza da luta, nunca dos seus resultados.”.

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A objetividade no Jornalismo

Introdução

 

Segundo Juarez Bahia, autor de “Introdução à Comunicação Social”, “objetividade significa apurar corretamente, ser fidedigno, registrar as várias versões de um acontecimento. É também ser criterioso, honesto e impessoal”. Com esse conceito em mãos, portanto, parece quase um paradoxo o fato de que os jornalistas tenham que ser objetivos. Afinal, assim como um historiador, parece ser impossível para um jornalista se isentar de suas opiniões e de sua experiência de vida ao registrar um acontecimento, já que o simples fato de ele escolher o que vai noticiar já é uma forma de parcialidade.

Entretanto, a Teoria da Comunicação básica empregada em instituições que ensinam a profissão de Jornalista, bem como a teoria da construção de textos jornalísticos, é marcada por palavras como “imparcialidade”, “objetividade”, “exatidão” e “veracidade”. O próprio Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros disserta sobre “a verdade no relato dos fatos” e sobre o ato de “divulgar os fatos e as informações de interesse público”.

O que é, porém, “informações de interesse publico”? E como uma pessoa vai saber qual é a verdade em um fato? E será possível ser “criterioso, honesto e impessoal”?

A objetividade existe mesmo ou é um mito jornalístico?
 

 
A objetividade
 

            Embora seja relacionada à forma do texto jornalístico por alguns teóricos, a objetividade é mais comumente ligada ao conteúdo. Exerce uma estreita relação com “exatidão” e “veracidade”, resultando na dita imparcialidade, que se torna sinônimo de objetividade ao também dissertar sobre a não-inserção do “eu” do jornalista na divulgação de uma notícia.

            Assim, um texto objetivo é que aquele em que há a apresentação de características do objeto em questão a ser noticiado, sem haver comentários e impressões a respeito do mesmo e sem uso extremado de adjetivos e advérbios. Para isso, o jornalista deve se restringir ao que presenciou ou teve contato sem se incluir no acontecimento em si.

            Seguindo essa linha, aparece como um dado extremamente importante o contato direto do jornalista com o fato a ser noticiado, já que é um de seus deveres atestar a veracidade do mesmo. Se isso não é possível, o profissional deve tentar de outras maneiras chegar a essa mesma constatação. Apenas através de uma apuração a fundo do caso é que a exatidão, ou mesmo a verossimilhança com a realidade, é alcançada. 1

            Como já foi dito anteriormente, outra preocupação do jornalista deve ser a de divulgar noticias que estejam de acordo com o “interesse público”. A objetividade entra, nessa questão, na medida em que o jornalista analisa os diversos fatos rotineiros para selecionar quais são aqueles que apresentam um teor de importância à sociedade em si, como um todo. Afinal, ser objetivo é ser imparcial, o que significa que, ao fazer essa triagem, o jornalista deve se isentar de interesses pessoais, políticos ou mesmo mercadológicos. Caso isso não aconteça e o jornalista selecione e noticie fatos que interessem a uma pequena parcela da sociedade, ele estará ferindo o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros 2 .
           O mesmo caso acontece caso o jornalista deixe de divulgar algo apenas por seu caráter jurídico devido a alguma divergência de interesse próprio ou de algum associado, e sendo esse acontecimento de alguma relevância pública.3   

            Outro dado importante que envolve a objetividade jornalística está ligado a uma maior percepção do acontecimento em si. Não uma percepção pessoal ou de sentido semelhante, mas sim a de procurar ver e contemplar todas as facetas envolvidas no fato. Para que não haja parcialidade, o jornalista deve procurar apurar o fato ouvindo e buscando informações não apenas de uma fonte, mas várias, e de diferentes classes sociais, econômicas ou de qualquer outro critério que possa ser usado. Assim, a divulgação do fato não estará envolvendo apenas uma pequena parte dos elementos envolvidos, mas sim a uma grande ou parte total, se possível.

            Essa teoria de “ouvir os dois lados” ainda colabora com a não monopolização da informação, pois incentiva “a manifestação de opiniões divergentes” e “o livre debate de idéias”, 4  tarefas importantes para se obter uma atitude imparcial e objetiva.

 
 

Divergências na prática jornalística

 

            A objetividade, porém, não é uma característica facilmente encontrada em uma profissional do Jornalismo e em seu trabalho. Na verdade, encontrar um texto objetivo –e isso quer dizer que são considerados os aspectos atrelados a esse conceito, tais como a veracidade, a imparcialidade e a exatidão –é uma tarefa praticamente impossível, já que a prática jornalística acaba diferindo em partes do que o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros institui e do que a maioria dos teóricos fala sobre ela própria.

            Considerando, porém, a natureza humana e toda a sua complexidade, não é difícil de entender o porquê de certos teóricos considerarem a objetividade/imparcialidade apenas um mito, e não uma prática do Jornalista. O próprio Juarez Bahia fala sobre as dificuldades de se conseguir realizar um trabalho objetivo e imparcial e de alguns obstáculos para isso, como a formação cultural –característica inerente ao ser humano –e a arrogância do profissional de jornalismo.


            José Marques de Melo, autor de “A questão da objetividade no jornalismo”, ainda diz que, mesmo que a objetividade esteja ligada à fidelidade com que o jornalista retrata a realidade, na prática, ela se torna um “mecanismo de síntese”, sendo que a “objetividade se converteu em sinônimo de verdade absoluta e é vendida como ingrediente para camuflar a tendenciosidade que existe no cotidiano dos veículos de comunicação”.

            A questão é que, ao trabalhar com uma empresa ligada à divulgação de notícias, o jornalista está também se comprometendo com os anunciantes de tal empresa, sendo esta sujeita, obviamente, às leis de mercado. Assim, a exposição de fatos e acontecimentos que contrariem esses anunciantes não é tolerada, fazendo com que o jornalista deixe de lado seu dever de retratar tudo aquilo que seja de interesse da sociedade para dar prioridade aos interesses dos patrocinadores. Os proprietários de grandes empresas de comunicação não apenas no Brasil, mas em todo o mundo, definem sua linha editorial e os jornalistas que trabalham nelas a cumprem. 

            Há também outra questão importante, que é a da corrupção. Através de propinas, o jornalista e a empresa pra qual trabalha são levados a “ignorar’ certos acontecimento políticos e públicos ou a olhar “com bons olhos” certos fatos que exigiriam uma visão crítica mais aguçada e uma maior apuração.

            Não é apenas, porém, por causa de questões moralmente contrárias à ética jornalística citadas acima que a objetividade se torna tão difícil na prática. O caso é que, para qualquer ser humano, deixar de lado suas convicções e ideologias, bem como seus valores morais conquistados e construídos durante toda a sua vida, é algo, se não impossível, improvável de ser conseguido. Portanto, as opiniões do jornalista sempre acabam influenciando no modo como ele vê e noticia os fatos, quer ele seja mais ou menos tendencioso.

            Ao selecionar fatos comuns para serem noticiados, o jornalista já está usando também seus valores e sua vivência pessoal para saber o que é de interesse público ou não. Acaba usando também suas opiniões políticas e sociais, já que, como qualquer outro cidadão, ele também está incluído na vida política do país e nos acontecimentos que tomam como palco o grupo social em que está inserido.

            Analisando o que José Marques de Melo falou e levando em consideração o que a maioria dos teóricos diz sobre a relação do jornalismo com a objetividade e ainda o famoso mito de que o jornalista apenas deve transmitir os fatos, enquanto que a pessoa a quem ele é transmitido é que deve formar suas próprias opiniões, os profissionais se utilizam de muitas técnicas para transparecer imparcialidade. O tratamento impessoal é a principal delas, fazendo parecer que o que está ali relatado não foi observado e formulado por uma pessoa, mas sim que são as próprias informações verídicas em si, isentas de opinião.

            Mesmo aparentando objetividade, porém, o jornalista muitas vezes se utiliza de imagens, gráficos ou mesmo do texto falado ou escrito para transmitir o fato a partir de seu ponto de vista ou do ponto de vista de sua empresa, marcando uma matéria tendenciosa. O público, entretanto, enganado pela áurea de imparcialidade envolta no jornalista, acaba assimilando as informações já direcionadas a uma forma de pensar sem saber que, na verdade, não foi ele que formulou aquelas conclusões. O jornalista, obviamente, se aproveita dessa situação, fazendo da mídia um importantíssimo formulador de opiniões de interesse público ou não, já que fatos que não interessariam à sociedade em geral são elevados a uma dimensão de grande importância.

 
 

Exemplos e condutas na prática jornalística


 

            Embora a objetividade seja, em sua totalidade, impossível de ser alcançada na prática, o jornalista não pode e nem deve ignorar esse conceito. Ele deve ter como base os ensinamentos teóricos de apuração, veracidade e exatidão, mesmo que não atinja a imparcialidade, pois, caso contrário, o jornalismo iria passar a ser nada mais do que preconceitos e opiniões derivados de uma única pessoa por trás dos ditos fatos, marcando uma divulgação extremamente declaratória. Afinal, como se pode concluir, as opiniões podem ser ditas –a questão está em como dizê-las.

Essa conduta jornalística de responsabilidade pública com o que está sendo noticiado deve ser ainda mais salientada quando os acontecimentos são relacionados a assuntos polêmicos, tais como a liberação do uso de células-tronco embrionárias em experiências científicas, o referendo realizado pelo governo para discutir o desarmamento ou não da população, a proibição de doação de sangue por testemunhas de Jeová, a eutanásia, entre outros. Afinal, tais assuntos envolvem inúmeras questões éticas e morais, já que o público, com toda a sua diversidade religiosa, econômica e social, apresenta diversos interesses e pontos de vista.

 Em 27 de Fevereiro de 2008, por exemplo, a revista Veja, da editora Abril, teve como matéria central um assunto extremamente polêmico: a renúncia de Fidel Castro ao governo cubano. É, obviamente, um assunto de interesse público, já que se trata de um país de importância na política externa por seu passado de revolução socialista, de isolamento diante do mundo e de continuidade de poder centralizado em uma única pessoa durante tanto tempo.

Por ser um regime político que difere do brasileiro, é ainda do interesse público conhecer os pontos positivos e negativos de tal governo para saber o que pode ser aproveitado do exemplo cubano.

            Sendo um regime ainda isolado, porém, a apuração jornalística se torna extremamente difícil, já que os documentos possíveis de ser visualizados são, em sua grande maioria, oficiais. Entretanto, uma forma de apuração ainda é possível ao ter contato com esses documentos, mas também com a população cubana em si, bem como cubanos que saíram da ilha e com historiadores com diversas linhas de pensamento.

            O que a revista Veja fez, porém, foi apenas consultar as fontes que interessavam à linha de pensamento político que esse próprio meio de comunicação tem em relação à política externa em geral e a Cuba e Fidel em específico. Houve a construção, portanto, de uma matéria extremamente tendenciosa, direcionando o pensamento do leitor para uma visão negativa do período de governo de Fidel Castro e do regime político cubano. A mensagem a ser passada é tão clara que já pode ser notada na capa dessa revista semanal, em que havia um foto do perfil de Castro com os dizeres “Já vai tarde – o fim melancólico do ditador que isolou Cuba e hipnotizou a esquerda durante 50 anos”.

            Com trechos como “Todo político tem que ser bom mentiroso. Para ser Fidel é preciso, no entanto, ser um grande farsante. Ele é um dos maiores que a história conheceu”, o jornalista segue em uma matéria altamente opinativa, sendo que ele acaba assumindo o papel de “juiz da história” ao selecionar fatos históricos que lhe interessam e confundi-los com sua própria opinião. Como ele próprio pergunta e responde sobre Fidel, “A história o absolverá? Difícil.”.

            Em atitude antiética e não-profissional, o jornalista ainda se utiliza de sarcasmo e ironia ao tratar do tema, fazendo com que o mesmo, apesar de ser algo sério a ser noticiado e analisado, assuma um caráter quase cômico. Chega a fazer o esplêndido questionamento: “O que será de Cuba depois que Fidel for se encontrar com Marx no céu dos comunistas?”. Levando em consideração que o jornalista não deve fazer campanhas políticas, também é de se levar a crer que todos os regimes ou doutrinas políticas devem ser analisados sem preconceitos ou interesses individuais que tal profissional claramente aparenta ter.

            Utilizando-se de frases de efeito como “Quem pôde fugiu” e “A economia planificada foi um desastre imediato”, o jornalista segue até o final da matéria com uma imagem tão carregada contra o regime cubano e Fidel que os dizeres na capa da revista parecem até ser justificados. Afinal, depois de todos os argumentos apresentados durante a leitura, a única idéia que deve surgir na mente do leitor é a de que, de fato, Fidel já foi tarde. Na verdade, não há nem outra alternativa de conclusão diante de tal argumentação.

            Há ainda a apresentação de cenários prováveis para o futuro de Cuba e de dados que comprovam tal argumentação. São elementos essenciais nessa matéria, além de necessários, mas é questão é que eles seguem a mesma linha de todo o restante do texto, não deixando de lado as opiniões do jornalista e nem apresentando outros elementos que os contraponham. Há também a apresentação de situações em que cubanos reclamam e contestam o regime, bem como uma entrevista, mas não há, novamente, contra-argumentos. Estes marcariam o que é chamado, no Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, de “manifestação de opiniões divergentes” – sendo que, ironicamente, a falta dessa manifestação em solo cubano é um dos principais pontos a serem criticados pelo mesmo jornalista. 

 



Conclusão

 
           

A objetividade, sinônimo de verdadeira imparcialidade com exatidão, apuração a fundo dos fatos e veracidade, é, de fato, um mito. A própria natureza humana é contra essa característica, já que cada homem está diretamente ligado a uma bagagem cultural intrínseca a ele, não podendo se desvencilhar de algo que molda toda a sua forma de pensar. A própria prática jornalística envolve muitos fatores mercadológicos e de interesses diversos para permitir que o jornalista cumpra sua tarefa de noticiar os fatos. Assim, a objetividade nos meios de comunicação é utopia, assim como o é também a própria imparcialidade humana. 

Isso não quer dizer que a objetividade deva ser ignorada por completo. Não; como também disse Juarez Bahia, “a imparcialidade é para o jornalismo um ideal, como a honestidade, a exatidão, a veracidade, a responsabilidade, a objetividade, etc”. Ou seja, mesmo que ser objetivo e imparcial seja algo impossível para qualquer homem, o jornalista deve ter em mente esses conceitos para que possa ao menos se aproximar de uma divulgação verossímil à realidade. Afinal, é preciso levar em consideração valores éticos e morais antes de noticiar assuntos polêmicos, como o citado anteriormente –a renúncia do ditador Fidel Castro ao governo cubano.

Inclusive, o jornalista pode, sim, dar a sua opinião. Ele pode ser subjetivo. Com isso, ele torna a matéria ainda mais enriquecedora, além de estabelecer uma relação de proximidade com o público que coloca, de uma vez por todas, o trabalho jornalístico como fruto de um homem como qualquer outro, suscetível a erros e má interpretações. O que o jornalista não pode é misturar os acontecimentos com essas opiniões pessoais, pois o público, ao não ter tido um contato direto com as fontes e com o fato em si, não vai saber diferenciá-los. Ou mesmo porque, em um país como o Brasil, poucos são aqueles que têm discernimento necessário para avaliar o que é opinião e o que é notícia.

 

Referências bibliográficas

 

  • “Objetividade: categoria jornalística mitificada”, Antonio Hohlfeldt.
  • Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros (www.fenaj.org.br)
  • Introdução à Comunicação Social”, Juarez Bahia.

1 Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, Cap. II, Art. 4º O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade no relato dos fatos, razão pela qual ele deve pautar seu trabalho pela precisa apuração e pela sua correta divulgação.

2 Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, Cap. II, Art. 6o É dever do jornalista: II - divulgar os fatos e as informações de interesse público; 
3 Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, Cap. I, Art. 2o , I - a divulgação da informação precisa e correta é dever dos meios de comunicação e deve ser cumprida independentemente de sua natureza jurídica - se pública, estatal ou privada - e da linha política de seus proprietários e/ou diretores.

4 Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, Cap. II, Art. 7o, III

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Thursday, April 10, 2008

O mal do homem

7 de abril de 2008

“Por que as pessoas são tão cruéis?”

“Ódio. Loucura, não sei…”
Esse é um diálogo do filme “Hotel Ruanda”, de Terry George. Já tem um tempo que assisti, mas sempre lembro dessa parte; é quando o país está entregue à guerra e os “brancos” já tinham ido embora. O gerente do hotel, Paul, conversava com um de seus funcionários, e sua resposta é espetacular. “Ódio.”
Concordo. Quer dizer, não tem nem como discordar, tem? Ninguém mata porque gosta ou porque está entediado, a menos que tenha problemas mentais… Pelo menos, é nisso que eu quero acreditar.
Mas depois eu continuo.
Essa tendinite no meu pulso está realmente me matando…

9 de Abril de 2008

“Por que as pessoas são tão cruéis?”
“Ódio. Loucura, não sei…”
Continuando, então. E eu gostaria de dizer que talvez meus pensamentos tomem um rumo diferente daquele que seria originalmente se eu tivesse continuado a escrever na segunda -que foi o dia do Jornalista, a propósito. É que só fui ler a Veja dessa semana hoje -tarefa que fico adiando o máximo possível por razões que, acho, já são bem claras para qualquer pessoa que me conhece.
Para quem não leu, a revista, em sua matéria de capa, culpa todos -ou quase todos -os atos humanos ligados a genocídos, mortes, torturas, etc, à maldade. Hmm, meio maniqueísta, devemos concordar. Deixando meus preconceitos à parte -algo que é impossível de se fazer, mas tudo bem… -, há um rápido comentário sobre a guerra civil de Ruanda, falando que a “psicopatia (…) é um distúrbio raro. Não explica o mal em grande escala – genocídios como os que ocorreram na Bósnia ou em Ruanda nos anos 90, por exemplo.”
Hmm, ok. O problema é que eu não consigo ler a Veja sem ver um defeito ou sem esperar achar um, na verdade. Ou seja, eu não consigo ler esse trecho sem achar que, por trás disso, há uma clara mensagem falando que os hutus são malvados. Outra neurose minha, aliás, porque eu também não consigo deixar de pensar naqueles filmes da Disney, com a bruxa malvada e a princesa pura, toda vez que a palavra “mal” é mencionada.
Mas existe realmente o mal? Bem, a revista -ou o jornalista, no caso -insiste que sim… E o pior é eles montaram uma matéria tão bem bolada, cheia de exemplos, de nomes famosos, de pensadores, de Satanás, Igreja, etc, etc, que você fica na dúvida quando acaba de ler! Sim, os ladrões, os assassinos, os hutus, os bôsnios, os soldados americanos de Abu Ghraib, a mãe que jogou a filha no rio… Malvados, malvados, malvados, todos eles! E não se esqueça que “Contrariando as ilusões de certo humanismo que acredita na possibilidade de reeducar qualquer criminoso, indivíduos assim são irrecuperáveis.”. Ou seja, joga todo mundo na cadeia. Ou mate logo, já que eles têm a “natureza cega do mal”.
Deixando as brincadeiras de lado, acho que é muito cômodo jogar a culpa em cima de um “distúrbio” irrecuperável como a maldade. Afinal, desse modo, a culpa de certas pessoas agirem de certos modos acaba se deslocando do externo para o interno. Claro que a revista não pára por aí, ela fala também de certos estímulos do meio, bem como situações, que meio que acordam esse lado malvado em algumas pessoas. Entretanto, só em insistir no mal em si é, para mim, uma atitude ingênua. Ou esperta, a depender do seu ponto de vista.
De qualquer jeito, como eu ia falando no outro dia, pode ser que pareça que eu pense exatamente a mesma coisa que a revista aos olhos de quem leia isso, mas acho que há uma diferença fundamental entre ódio e maldade. Ao meu ver, o ódio é uma consequência que pode ser causada em qualquer pessoa, enquanto que a maldade parece ser um sentimento ou um estado de mente por si só, encerrado em si mesmo e sem mais explicações. Não sei se estou me fazendo entender… Mas é que falar que os hutus mataram tantos tutsis só por maldade parece ser um trecho de uma história infantil! Os hutus só mataram porque são malvados -ou cruéis… Isso, qualquer criança entende e acha perfeitamente compreensível, mas eu não; o mundo é muito mais complexo do que isso. Você falar, porém, que os hutus mataram tutsis porque sentiam ódio deles já é uma outra história! Citando o diálogo do filme, as pessoas são cruéis porque sentem ódio, e não porque são malvadas! Afinal, crueldade e maldade são sinônimos, certo? Ou seja, as pessoas se tornam malvadas porque sentem ódio!
E que se excluam os casos de psicopatia, como eu já tinha falado na segunda-feira. Melhor: vamos igualar psicopatia à loucura, e então teremos um diálogo mais fantástico ainda no filme.
“Por que as pessoas são tão malvadas?”
“Ódio. Psicopatia, não sei…”
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Thursday, January 3, 2008

O ser mulher

Ninguém pode negar as conquistas da mulher nas últimas décadas. De dona de casa, passou à profissional de carteira assinada, conseguiu o direito de votar e ainda liberdade na escolha sexual. Todas essas conquistas, porém, são relativas, e a mulher segue lutando e andando em um perigoso caminho: o da negação dela mesma e da sua feminilidade.
A luta pela igualdade entre os sexos é antiga, mas suas vitórias são recentes. Por ser um problema estruural, porém, é uma questão que leva tempo e que deve ser conduzida com cuidado. Sendo a sociedade patriarcal e machista, a luta feminista ainda acaba sofrendo influências de mesmo caráter, levando a vitórias, portanto, que apenas mascaram a manutenção das condições de vida. Seguindo esse caminho, a mulher passou por duas transformações das mais perigosas, que precisam ser reconstruídas.
A primeira está na igualdade propriamente dita. Forçada a tomar decisões para se igualar ao homem devido à necessidade de concorrer com este imposta pela sociedade capitalista, a mulher acabou deixando de lado aspectos característicos de seu sexo. Passou por um processo de “masculinização”, por assim dizer, vestindo-se e até mesmo se comportando como o homem. A questão de gênero, portanto, passou a ser didática na medida em que a mulher conseguiu essa falsa igualdade.
A segunda transformação é mais complicada, pois, na verdade, refere-se a um fenômeno que acompanha a mulher desde a antiguidade. É a tentativa de se diferenciar do sexo oposto através da feminilidade. A mulher acaba, mesmo que inconscientemente, tornando-se o estereótipo feminino imposto pela sociedade consumista e machista. Ela começa a relacionar feminilidade com maquiagem, vestidos e sapatos altos, sem saber que ser mulher é algo mais profundo e inerente do que esses acessórios.
Mesmo tendo tomado os apectos já citados, a luta feminista não apenas pode, mas deve continuar. A desconstrução dos valores alienantes e sua posterior reconstrução deve passar pela análise de cada um sob um ponto de vista crítico. A questão está em saber ser mulher sem ter que negar-se.
A mulher pode, de fato, representar uma concorrência acirrada ao homem através do estudo e da emancipação, e não se masculinizando. Manter-se mulher, entretanto, não significa assumir o cor-de-rosa e o salto agulha; ser mulher é ser inteligente com emoção, é ser a mãe que também briga, é ser a luta dos oprimidos, é ser bela sem ser objeto sexual, é ser vaidosa sem ser alienada. Ser mulher é isso.
 
**19 de novembro de 2007**
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Tuesday, December 18, 2007

Unifacs

   O livro é um dos maiores tesouros da humanidade. É através dele que o homem transmite e conhece a sua História, tem os mais diversos conhecimentos e ainda participa ativamente da formação da identidade de seu povo. Para um país como o Brasil, portanto, nada seria mais natural do que uma “revolução do livro”, revolução esta que ocasionaria as tão necessitadas mudanças socioculturais no país.
   Em plena era pós-Terceira Revolução Industrial, o elemento mais valorizado nas questões profissional e social é o conhecimento que a pessoa tem. O Brasil, porém, não conseguiu modernizar-se o suficiente para deixar seu povo apto para os desafios da sociedade globalizada. Com o índice de apenas dois livros lidos por habitante ao ano, o país não investiu- e não investe- o suficiente em educação e tem, por isso, escolas e bibliotecas precárias, com livros e materiais obsoletos. Assim, o povo brasileiro fica à mercê da ignorância, marginalizado do conhecimento e do desenvolvimento mundial.
   Como “conhecimento” tornou-se sinônimo de “inclusão social”, investimentos no setor educacional do Brasil pode trazer ótimas consequências. A leitura e a educação abrem caminhos antes desconhecidos para o homem pobre brasileiro, que passa a fugir do determinismo social ao ver-se livre das limitações de sua classe. Além do mais, o povo também passa a ter acesso à história brasileira, ajudando a consolidar a idntidade do país ao se desenvolver socialmente sem negar as suas origens culturais.
   A “revolução do livro”, que deve ser acompanhada do investimento em bibliotecas, em escolas, em compras de livros, em projetos de inclusão social e, consequentemente, na luta contra o analfabetismo -funcional ou não -, não é um elemento novo na História da humanidade. A Coréia do Sul, por exemplo, saída de uma guerra civil, investiu pesado em educação. O que a leitura levou ao país foi o desenvolvimento sociocultural de seu povo, que, antes perdido em meio à guerra, voltou a constituir uma nação ao unir-se em volta do livro.
   Embora seja extremamente difícil mudar uma sociedade com tantos problemas estruturais, como a brasileira, não é ago impossível. Basta o investimento no livro, simbolo do desenvolvimento e do conhecimento, que, mesmo sendo a longo prazo, mudrá o Brasil. Assim, o povo brasileiro poderá voltar a ter orgulho de seu país, provedor de suas mais profundas necessidades, sejam stas físicas, econômicas ou até mesmo culturais.

**2 de dezembro de 2007**

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Thursday, November 15, 2007

Uma quebra necessária e indeterminada

   Durante a História da humanidade, o homem enfrentou muitos obstáculos para conseguir se desenvolver: enganou a natureza ao construir barragens, driblou a cadeia alimentar com sua inteligência e deixou para trás os seres irracionais ao se socializar com individualidade. Existe um obstáculo, porém, que o homem ainda não conseguiu quebrar por ser esse o mais difícil de todos: o preconceito.
   O preconceito e a racionalidade humana surgiram simultaneamente. A partir do momento em que a mulher desprezou um determinado macho que não lhe pareceu atraente, a exclusão, bem como o estabelecimento de um padrão aceito na sociedade, iniciou-se. Assim, no decorrer da História, o preconceito foi se acirrando e se multiplicando, chegando ao ponto de ser quase inerente ao homem a formação de pré-conceitos. Por isso, quebrá-lo é extremamente difícil.
   O preconceito atinge inúmeras facetas da humanidade. Vai de questões raciais até sexuais, passando por religiosas, sociais e mesmo geográficas. O preconceito racial é um dos mais focados na atualidade, já que dele a culpa de alguns dos piores acontecimentos da História. Apesar de massacres como os decorrentes da escravidão negra e da ocupação hispânica na América (morte indígena) fazerem parte do passado, seus gritos ainda ecoam ao jogar os negros na miséria das favelas e do desemprego e ao desvalorizar a cultura indígena. Medidas como cotas universitárias têm sido tomadas, mas o preconceito racial envolve mais uma mudança de ideologia do que medidas provisórias como essas.
   Outro preconceito muito atual é o religioso. Mesmo com lições como as Cruzadas e a Segunda Guerra Mundial , que massacraram árabes e judeus, o homem não parece ainda ter aprendido a respeitar a individualidade de sua própria espécie, apesar de ter sido ela o fator que o diferenciou dos animais irracionais. Assim, milhares de cristãos, muçulmanos, judeus e adeptos de tantas outras crenças seguem morrendo por causa da intolerância e do preconceito do homem. Por muitas vezes beirar ao fanatismo, o preconceito é um dos mais difíceis de ser quebrado.
   Seja matando, excluindo, prendendo ou escravizando, o preconceito está presente em todo o decorrer da História da humanidade. Mesmo sendo tão nocivo e, por isso, ter grande necessidade de ser ultrapassado, o preconceito segue se fortalecendo, tornando a sua quebra cada vez mais difícil. “Até quando o homem vai sobreviver a ele sem se auto-destruir?”, portanto, é uma pergunta sem resposta.

**6 de novembro de 2007**
 

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Saturday, November 10, 2007

E justifica?

   Pequena. É exatamente assim que eu me sinto diante de tudo isso.
   É tanta morte, tanta dor, tanto sofrimento… Por que essas coisas acontecem? O que leva um homem a machucar outro? Nossa, eu juro que não sei. E essa pergunta pode parecer clichê de sentimentalistas por aí, mas é que ela não sai de minha cabeça. Afinal, todos já sentiram dor. E não gostaram.
   Como não acredito em maniqueísmo, essa reposta de que é porque existem homens cruéis não me satisfaz. Eu também posso ser uma pessoa cruel às vezes. Mas também posso ser boa e posso não ser nada, então não acredito em pessoas naturalmente boas ou naturalmente más. Hitler, por exemplo, não era um demônio, como muitos gostam de falar, mas um homem. Talvez um homem com mais problemas do que a maioria de nós; ele teve uma vida difícil em um país acabado pela guerra, aonde as pessoas, que haviam sido criadas para acreditar em sua superioridade, não acreditavam em mais nada, nem nelas mesmas. Viveu horrores no exército, passou por miséria e teve seu sonho rejeitado duas vezes -não conseguiu entrar para a escola de artes, rejeitado em ambas as vezes por um professor judeu, a propósito. Hitler, porém, encontrou o seu refúgio: a ideologia nazista. Ela lhe explicava o porquê de tudo que lhe acontecera: a sua miséria, a derrota ariana, o fracasso de sua vida. E ele, obviamente, agarrou-se a ela com fervor, como um velho no final da vida que passa a acreditar em Deus e paraíso apenas para continuar a viver. O problema com Hitler foi que ele teve poder demais em suas mãos. Poder demais, raiva demais, ódio demais. E as pessoas acreditaram nele.
   A vida de Hitler, suas derrotas, traumas, problemas -mentais ou não-, porém, não justificam o que ele fez. Não justificam os seis milhões de judeus mortos, nem mais uns três de ciganos, negros e homossexuais. Nem também os 25 milhões de russos mortos. Mas eu quero chegar justamente nesse ponto: ele fez o que fez porque pôde fazer e tinha apoio para tal. Apoio popular -por pessoas alienadas pela fome, pelo patriotismo, pelo sonho de glória, pela força de um líder em um país destruído. Se o partido Nacional-socialista não tivesse crescido tanto, nada disso teria acontecido. Portanto, passando já para a esfera atual, será que nós concordamos e ajudamos a realizar toda essa miséria, carnificina, morte, dor e fome? Esses líderes -donos de corporações, presidentes, políticos, guerrilheiros, reis, ditadores… - apenas massacram e destróem porque tem o nosso apoio ou a nossa negligência?
   Ainda pensando em Hitler, também não acredito que cada um desses homens por aí seja alienado por uma ideologia e tenha tido uma vida difícil -que, repito, mesmo assim, não justifica, já que muitos de nós também tiveram uma vida difícil e ainda conseguiram agir com ethos civilizacional, tendo poder ou não nas mãos. Sei, porém, que uma das forças mais poderosas do mundo pode fazer o homem negar a sua humanidade e realizar qualquer tipo de barbárie, e essa força é a ganância. Ou ambição, se preferir. É ela que cega um homem a ponto de matar um irmão de fome, deixá-lo viver em condições sub-humanas, sem educação, água, comida. É ela também que joga bombas ao redor do mundo, em busca de mais e mais riqueza, indiferente se está matando pessoas ou não. A ganânca é a responsável pela decadência da humanidade.
   Mas não gosto da palavra “cegar”. Acredito que, hoje, ninguém é mais ingênuo para ignorar as consequências de seus atos. Também não são ingênuos os que percebem esses atos e não fazem nada. Nós sabemos. Quem hoje acredita que existam bombas de destruição em massa no Iraque? Ou que havia milhares de campos de treinamentos terroristas no Afeganistão - e mesmo que existissem, todos nós sabemos o porquê dessa existência, e o que a causou (sem, novamente, justificar nada) - e que Bin Laden estava lá? Quem acredita que os exércitos internacionais e os grupos de ajuda apenas não entram em determinados locais da África porque é inviável ou porque o governo local é corrupto ou totalitarista? Quem ainda acha que na favela só tem bandido, e que nossa polícia pode, por isso, já chegar atirando lá? Quem cai na ladainha de que em Cuba só tem miséria e pobreza? Quem? Ou será que estou enganada?
   Ah, sabe de uma? Não sei. E às vezes dá vontade de desistir, de deixar tudo de lado, de esquecer o resto do mundo e ir viver minha vida. Bem que eu queria isso, talvez eu fosse mais feliz, não é? Mas não consigo. Não consigo não pensar nos milhares de africanos que estão morrendo de fome nesse exato minuto. Nas crianças de todo o mundo, perecendo de doenças que já deixaram de exitir em países mais ricos. Nos nossos favelados, sem uma oportunidade de acabar com o ciclo vicioso -e imposto -do pobre de ser também pobre e analfabeto. Nas mulheres árabes, africanas, asiáticas, americanas, todas as mulheres que são criadas para crer que são inferiores por serem mulheres, e não podem mostrar seus rostos, não podem ter prazer e não podem ter vida própria, que são surradas pelos maridos, que recebem salários mais baixos. Pode me chamar de assistecialista, mas se eu pudesse -e soubesse como e tivesse a coragem -para ajudar todos eles, eu ajudaria.
   Você também tem o direito de achar isso uma bobagem. Ou de não achar nada, sei lá. É só uma viagem de uma menina de 17 anos.

**10 de novembro de 2007**

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Sunday, October 28, 2007

A nossa herança

   Ciclones tropicais. ondas de calor, furacões, desprendimento de “icebergs”, declínio da biodiversidade, aumento do nível dos mares… Essas são apenas algumas das consequências do aquecimento global. Agora, porém, não é o momento de observar esses efeitos, mas sim o de evitar que esta lista aumente e que, de preferência, retroceda. Para isso, cada um pode, de fato, fazer a diferença nessa operação resgate da Terra.
   Segundo o relatório do Painel Intergovernamental De Mudanças Climáticas (IPCC), a temperatura do planeta subiu 0,7o C apenas no século XX. Essa elevação é proveniente do agravamento do Efeito Estufa, o fenômeno natural que propiciou o surgimento da vida. O que cria, porém, também mata, e é essa a tendência se as pessoas de todo o mundo não abrirem os olhos para a gravidade da situação e não ajudarem a decrescer o nível de CO2 atmosférico.
   Embora medidas governamentais já tenham sido tomadas, como o Protocolo de Kyoto, há ainda muito a ser feito para amenizar o Efeito Estufa. Essas ações podem vir de dentro da casa de cada um. O uso de madeira de origem legal, por exemplo, já faz uma enorme diferença. Se os brasileiros boicotassem a madeira ilegal, que representa 88% de toda madeira no país, o desmatamento diminuiria na Amazônia, a chamada “pulmão do mundo” por fixar CO2.
   Medidas mais práticas em relação à energia também podem ser tomadas, já que, no mundo, as principais fontes energéticas são os combustíveis fósseis, cuja queima libera CO2. Trocar lâmpadas incandescentes por fluorescentes economiza 75% da energia gasta, bem como apenas comprar eletrodomésticos com certificado de eficiência energética. Os aparelhos em “stand-by” também devem ser tirados da tomada, e a geladeira, apenas aberta quando necessário. As roupas devem ser lavadas aos montes, e usar aquecimento solar para a água do chuveiro é uma boa idéia.
   Outra medida importante é em relação ao transporte. Carros grandes podem liberar até 35 Kg de CO2 por 100 Km rodados. Assim, utilizar transporte público, andar de bicicleta ou mesmo caminhar evita essa liberação, além de deixar de lado o stress do tráfego.
   Ainda segundo o IPCC, que estimula a ação individual, uma mudança de estilo de vida, com os pontos colocados acima, pode levar a uma redução drástica na emissão de CO2. Pesquisas mostram que essa redução pode chegar a até 90%. Portanto, no fim do mês, não apenas o planeta agradecerá às pessoas por tais ações, mas também seus bolsos. Além do mais, ter em mente que é possível impedir o aquecimento global é também deixar um futuro para nossos filhos e netos. Um futuro bom.
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Wednesday, October 24, 2007

Descoberta de vida

   Acordei num dia desses pensando no que a Terra significava para mim. Esse pensamento não foi à tôa. Afinal, aquele também foi o dia em que me vi sozinho no mundo, sem meus pais, sem família, sem amigos. Foi justamente a minha fuga que me mostrou que a única conhecida naquela cidade estranha em que me encontrava era a própria Terra, e, já que sempre tive como base de vida a idéia de que, para falar ou pensar sobre algo, é preciso conhecê-lo, peguei minha moto e caí na estrada.
   Êta, mundão grande! Vi florestas, montanhas, rios, desertos, cidades, tribos e cavernas. Andei por dias, meses, anos… Até que perdi a noção de tempo. Havia tanta coisa a ser vista que eu acreditava que nunca poderia realmente conhecer a Terra a ponto de falar algo sobre ela. Uma opinião deve generalizar o elemento a que se refere, e como eu poderia ter uma sobre um planeta tão complexo, tão multifacetado, tão selvagem e, ao mesmo tempo, tão materno?
   Foi aí que percebi: a Terra é isso tudo e é assim que ela não é apenas minha conhecida, mas também a sua e a de uma pessoa que vive a quilômetros de você. Por ser tão completa, ela pode ser a conhecida-vilã para o africano em pleno Saara, mas também a conhecida-mãe para o componês nos férteis campos americanos; pode ser apenas a conhecida para os moradores da turbulenta Tóquio, mas tembém a melhor amiga para os índios brasileiros. Assim, o significado para cada um da Terra praticamente não varia (o de morada), apenas o enfoque que damos a ele.
   Cheguei, enfim, ao objetivo de minha jornada: então, o que a Terra significava para mim? Hoje sei que ela já deixou de ser minha conhecida Há muito tempo. Conheço-a com intimidade: ela é a estrada por onde andei com minha moto, a árvore que me deu alimento. É também o quarto sujo de periferia da cidade, meu abrigo, a montanha que corta o céu e a taba do índio… A Terra é isso: a Terra é vida.

**23 de Outubro de 2007**

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